By 19 de junho de 2026
Fatores que influenciam a retenção de mão de obra no campo A escassez de mão de obra qualificada é apontada por produtores rurais como um dos principais desafios para a competitividade do agronegócio brasileiro. Levantamentos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA-2025) e de entidades do setor indicam que contratar e reter trabalhadores qualificados está entre as maiores preocupações dos produtores. A elevada rotatividade da mão de obra no meio rural costuma ser atribuída apenas à remuneração. Entretanto, essa explicação é insuficiente. Estudos nacionais e internacionais demonstram que a decisão de um trabalhador deixar uma propriedade para ingressar em outra resulta da combinação de fatores econômicos, profissionais, familiares e sociais. O Censo Agropecuário do IBGE (2017) evidencia uma redução contínua da população ocupada na agropecuária nas últimas décadas, refletindo mudanças tecnológicas, urbanização e migração para atividades não agrícolas. Nesse contexto, a retenção de trabalhadores tornou-se questão estratégica para a sustentabilidade econômica das propriedades rurais. Sem dúvida, o salário continua sendo um dos principais motivadores. Contudo, pesquisas mostram que a decisão também é influenciada pela busca por melhores perspectivas de vida para toda a família, incluindo acesso à educação para os filhos, serviços de saúde e melhores condições de habitação. Outro fator importante é a perspectiva de crescimento profissional. O trabalhador tende a permanecer onde percebe oportunidades de aprender novas atividades, assumir maiores responsabilidades e construir uma carreira estável. A literatura de gestão de pessoas demonstra que reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho, qualidade da liderança e bom relacionamento entre colegas aumentam a satisfação, o comprometimento e a permanência dos trabalhadores nas propriedades rurais. Além dos impactos sobre os trabalhadores, a elevada rotatividade gera prejuízos significativos para as propriedades rurais. A substituição frequente de funcionários aumenta os custos de recrutamento, seleção e treinamento, reduz a produtividade durante o período de adaptação dos novos empregados e provoca perda de conhecimento prático acumulado sobre os processos da fazenda. Em atividades pecuárias e agrícolas que dependem de mão de obra qualificada, a saída de trabalhadores experientes pode comprometer a eficiência operacional, a qualidade da execução das tarefas, o manejo dos animais, a manutenção de equipamentos e até mesmo a segurança do trabalho. Estudos sobre gestão de pessoas indicam que os custos da rotatividade podem representar múltiplas vezes o salário mensal do trabalhador substituído, considerando despesas diretas e indiretas. No ambiente rural, esses impactos tendem a ser ainda mais relevantes em razão da necessidade de treinamento específico para determinadas atividades. Além disso, a mecanização, a sazonalidade das atividades e as mudanças na organização da produção incentivam muitos trabalhadores a buscar propriedades que ofereçam maior estabilidade e melhores condições de desenvolvimento profissional. Do ponto de vista gerencial, algumas medidas podem contribuir para reduzir a rotatividade nas propriedades rurais. Entre elas destacam-se a realização de um processo adequado de integração dos novos funcionários, o estabelecimento de critérios claros para crescimento profissional, o investimento contínuo em capacitação, a oferta de moradia e condições de trabalho adequadas quando aplicável, o reconhecimento do bom desempenho e a promoção de um ambiente de respeito e comunicação transparente. Essas ações fortalecem o vínculo entre trabalhador e empregador, aumentam a satisfação no trabalho e favorecem a permanência dos profissionais na propriedade. Reduzir a rotatividade exige muito mais do que oferecer um salário competitivo. Remuneração justa, reconhecimento, ambiente respeitoso, oportunidades de crescimento, moradia digna e preocupação com o bem-estar da família são fatores essenciais para reter talentos. Em um cenário de escassez de mão de obra qualificada, investir nas pessoas tornou-se uma estratégia indispensável para a competitividade do agronegócio. Propriedades que conseguem atrair, desenvolver e reter trabalhadores qualificados tendem a apresentar maior estabilidade operacional, melhor desempenho produtivo e menores custos associados à substituição constante de mão de obra.        
Sílvio Lacerda de Oliveira
Doutor em Ciências Ambientais
Advogado e zootecnista